Lançamento do livro Viver é perigoso, na Livraria Janela em Laranjeiras
O dia que conheci Marcelo Freixo.
CARTAS AO RIO
Amanda Faraco
5/16/20265 min read


Sexta-feira, 15/05/2026, eram quase 18h e eu rolava o feed do Instagram quando vi um post no @alolaranjeiras, sobre o lançamento do seu livro na Livraria Janela, na Rua General Glicério, em Laranjeiras.
Me arrumei correndo e chamei minha fiel compaheira Victoria (8 anos) para ir comigo.
Eu ainda não me perdoei por ter perdido o lançamento do Não sei se é bom mas é teu, da Maria Ribeiro.
Eram 19h quando de dentro do carro olhei para um relógio na Rua das Laranjeiras, e tinha acabado de passar o viaduto da Pinheiro Machado.
Eu tô tão acostumada a fazer tudo a pé pela região que esqueci que o trânsito a essa hora por ali é tenso.
O motorista buzinava e buzinava como se os carrros da frente fossem flutuar para que a gente pudesse passar, eu odeio quando os motoristas fazem isso mas nesse dia eu gostei, queria chegar rápido, não queria perder nem um minuto.
Falei brincando que ia pedir pra você esperar a gente chegar.
Nós temos uma regra, não falar de politica perto de estranhos, especialmente em carros de aplicativo e táxis onde ficamos mais vulneráveis. A partir de 2018 eu comecei a ter medo daquelas pessoas que concordavam que tinha que fuzilar quem tem pensamento político diferente.

Algumas semanas depois, eu estava me inscrevendo no meu primeiro concurso para o Rio, e depois outros, até que em 2022 fui nomeada.
E eu estava muito feliz porque poderia votar em você para governador. Fiquei decepcionada porque o prazo para transferir o título já tinha acabado.
Mas, voltando ao lançamento lá na Livraria Janela, estes encontros estão entre as coisas mais legais que o Rio me proporciona.
Um participante compartilhou como sente diferença quando conversamos sobre política em Laranjeiras e em outras regiões da cidade, e sobre como a extrema direita construiu a sua imagem, algo que me lembra muito o que também fizeram, e ainda fazem, com Brizola.
Em outubro, quando aquela operação aconteceu, li o comentário de uma conhecida “barrense” dizendo que aquilo era apenas uma “faxina”.
Senti uma angústia profunda, mas preferi não comentar nem discordar; apenas seguir em frente, tomada por uma tristeza real.
Eu simplesmente estava sem forças para tentar despertar empatia em quem não queria entender.
Você tem razão quando diz que o Rio não é a General Glicério. A insegurança aqui é incomparável com o que acontece em áreas dominadas pelo crime organizado. Não tenho lugar de fala, mas tenho empatia com os milhões de moradores que vivem nesses territórios.
Percebo, nas redes sociais, um aumento de movimentos de “justiceiros” na Zona Sul, e o aumento de notícias sensacionalistas sobre o aumento da violência na região.
Vejo comentários comemorando a onda de assaltos em Laranjeiras e nos mandando fazer o L.
Vejo pessoas agindo com truculência com pessoas que ajudam moradores em situação de rua com alimentos e agasalhos e me pergunto:
Como podem ser tão maus?
Quando você citou Hannah Arendt no primeiro capítulo sobre a banalidade do mal eu lembrei da banalização do discurso de ódio como estratégia política e da tentativa de alguns grupos políticos em transformar criminosos em heróis.
Me preocupa que esses movimentos tenham muitos apoiadores, mesmo em uma região considerada progressista.
Essa normalização da barbárie e do “olho por olho, dente por dente” me assusta.
Alguns dias atrás uma senhora foi agredida na Rua do Catete pois se incomodaram porque ela cantava louvores.
Comentários justificavam a violência porque ali não era lugar de pregação.
Outra pergunta feita por uma participante tocou em um assunto sobre o qual eu também me perguntava: como as lideranças de esquerda pensam o futuro próximo quando o presidente Lula se aposentar?
E a sua resposta, apesar de não dar o alívio de que eu precisava, foi realista:
“A preocupação agora é com 2026.”
Pensando em 2026, como conversar com essas pessoas que não estão dispostas a ouvir, que repetem frases prontas e desinformação em grupos de caráter duvidoso, que apoiam o “olho por olho, dente por dente”, que te acusam de defender bandidos enquanto apoiam quem tem relações estreitas com criminosos?
Em 2018, eu tentei e falhei, mas, assim como Darcy Ribeiro, eu odiaria estar ao lado dos que venceram.
Quando desci do carro você foi a primeira pessoa que vi, estava bem na entrada e enquanto eu caminhava lentamente pensava:
- E agora? Devo fingir costume?
Naqueles segundos que eu caminhava em direção a entrada da livraria passou um filme, e tentando não ser tiete eu te abracei e disse que era um prazer conhecê-lo.
Não me lembro nem se dei boa noite para você e para as outras pessoas que ali estavam, fiquei parada ali por um tempo e você brincou com a Vic e com o moletom de dinossauro que ela usava e falou dos seus filhos e do seu netinho.
Ela entrou procurando os livros infantis e o filme continuou passando na minha mente.
O ano era 2016, eu morava em Três Corações, sul de Minas, na sala dos professores o assunto eram os debates no Rio e em São Paulo.
Esqueci de te contar que também sou professora.
Uma colega que eu tinha uma certa repulsa começou a falar mal de um tal Marcelo Freixo, que defendia bandidos e era a favor da "liberação das drogas", um absurdo.
Se a Márcia era contra o Freixo, eu tinha certeza que eu ia ser a favor, porque a Márcia em 2016 representava pra mim o tipo de pessoa que eu não gostava de ter por perto, infelizmente a partir de 2018 eu descobri muitas Márcias.
Naquele dia eu comecei a assistir aos debates para a Prefeitura do Rio, mas como tudo na vida têm um ônus no mesmo dia eu conheci aquele que saiu em todas as notícias dessa semana e que infelizmente tem Márcias querendo-o como presidente no lugar do pai, o inelegível.
No mesmo ano eu comecei a me interessar por política e você se tornou uma referência.
Até então eu nunca tinha me definido como direita ou esquerda, mas quando o Brasil começou a polarizar e os discursos de ódio ganharam palco não dava mais pra ficar em cima do muro.
Durante o lançamento do seu livro Viver é perigoso você respondeu a algumas perguntas que eu sempre me fiz durante esses anos, sobre o preço da exposição e do combate ao crime em sua raiz e não superficialmente como a extrema direita trata a segurança pública.
Sabe que de uns anos pra cá eu tenho sentido vontade de me expor mais, mas junto disso vem o medo, o medo de não poder ir para os blocos de carnaval ou para a praia sem me preocupar, o medo de colocar a vida da minha família em risco, já que mesmo sem tanta visibilidade já recebi ameaças pelo Instagram ao tratar de temas polêmicos.
Por muito tempo eu achei que meu sonho de morar no Rio era só pelas belezas naturais e as cenas das novelas do Maneco que eu sempre assisti desde criança.
Mas a decisão real veio em 2018, foi em um show do Roger Waters no Maracanã, não foi só uma homenagem, foi um ato pela democracia às vésperas do Brasil escolher aquele presidente, nesse dia eu tive certeza que eu ia morar aqui, quando presenciei uma multidão de gente chorando emocionada e pedindo justiça por Marielle e Anderson. Foi como se eu tivesse encontrado a minha turma.
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Amanda Faraco, mineira apaixonada pelo Rio.
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