" O Catete é o bairro mais decadente do Rio."

Recentemente me deparei com esse comentário em alguma postagem aleatória no Instagram e é óbvio que eu não ia deixar quieto.

CATETECARTAS AO RIO

5/22/20263 min read

Eu li esse comentário outro dia que me fez refletir.

Neste bairro decadente está quase impossível alugar uma kitnet / studio por menos de R$3.000.

Como entender a cabeça de quem comentou, penso que essa frase revela muito sobre o que quem fala espera da cidade.

E, principalmente, sobre o que a gente aprendeu a rejeitar sem perceber.

A estética da rejeição

Existe uma expectativa silenciosa sobre o que a Zona Sul deve ser:

limpa, organizada, silenciosa, segura, cara.

Quando alguém olha para o Catete e vê decadência, talvez esteja vendo:

  • prédios antigos com marcas do tempo

  • fachadas que não passaram por uma “harmonização urbana”

  • comércio popular, sem curadoria estética

  • gente demais, vida demais, ruído demais

  • o passado glorioso remontando a quando era sede da república contrastando com a figura atual de um bairro popular.

Mas desde quando isso virou sinônimo de pior?

É um bairro pequeno e com a maior densidade populacional do Rio.

Tem duas estações de metrô (Catete e Largo do Machado).

Tem um comércio de rua incrível, e onde muitos veem caos e desordem urbana eu vejo cidadãos trabalhando e ocupando os espaços públicos.

Comprar alho descascado e especiarias na barraca perto do Hotel Imperial é um caminho sem volta.

O palácio do Catete além do espaço interno do museu e das exposições, tem um jardim incrível, onde encontramos idosos em suas caminhadas, crianças com seus pais ou suas babás, vovós conversando no parquinho enquanto os netinhos brincam, pessoas descansando no horário de almoço antes de voltar ao trabalho, serestas, feiras livres, adolescentes conversando pelos cantos, grupos de excursão de escolas de diversos lugares, e até tinha um cinema uns anos atrás, mas infelizmente está fechado.

É um espaço que simboliza um oásis em meio ao caos urbano da cidade.

Todas as pessoas deveriam ter o direito a ter um espaço assim por perto, lazer gratuito e ao ar livre.

Os moradores do Catete também desfrutam da Praia do Flamengo a poucos minutos, além de toda estrutura do Aterro, a pista é fechada aos domingos e feriados para lazer, famílias e amigos se encontram para apedalar, patinar, caminhar, brincar e correr.

Além de ter fácil acesso a outras regiões da cidade.

"Vai ser assaltado dando mole no Catete."

Outro comentário que mostra mais um preconceito e que esbarra nos dados de ocorrências no bairro.

De acordo com o Mapa do Crime disponível no portal O Globo, entre janeiro e junho de 2025, foram registrados 27 roubos de celular no Catete. Um dos menores índices da Zona Sul, o bairro com menor número de ocorrências foi o Cosme Velho com apenas 2 .

Esse número não encaixa na imagem de caos que tentam colar no bairro.
Então talvez o problema não seja a realidade, seja o olhar.

O Catete não é homogêneo.

E isso é desconfortável para muita gente.

Ali convivem:

  • moradores antigos e novos

  • aposentados e jovens

  • bares tradicionais e lanchonetes baratas

  • gente indo trabalhar, gente voltando, gente ficando

  • pessoas em situação de rua

Tem camelô. Tem padaria cheia. Tem criança de uniforme. Tem gente bebendo cerveja às quatro da tarde. Tem gente com o pé sujo de areia. Tem bêbados e drogados. Tem cantora gospel sendo agredida na rua, tem aquele cara que viralizou pegando um cisne do Parque Guinle passando mal de tanta cachaça.

Tem saxofonista, violinista, grupos de danças se apresentando, artesanato e economia criativa.

Tem vida que não foi filtrada.

E talvez seja isso que incomode.

Porque existe uma ideia, meio que não dita, mas naturalizada de que qualidade de vida está associada à exclusividade.
Quanto menos misturar, melhor.
Quanto menos contraste, mais “valorizado”.

O Catete faz o oposto: ele mistura tudo.

Não é bairro de destino.
É bairro de passagem, de encontro, de atravessamento.

E bairros assim envelhecem diferente.
Eles não são “preservados”.

Eles são usados.

Talvez o que chamam de decadência seja só isso:
um lugar que continua sendo vivido.

Talvez o problema seja o tipo de cidade que a gente passou a desejar.

Uma cidade silenciosa demais.
Controlada demais.
Parecida demais.

Onde o comércio é padronizado, as fachadas são iguais, e as pessoas se isolam em condomínios para não ter que olhar para fora.

Nesse cenário, o Catete destoa.
E tudo que destoa vira suspeito.

Mas tem uma pergunta que não sai da cabeça:

Quando foi que a gente decidiu que cidade boa é cidade que parece não ter gente?

Chamar o Catete de decadente é mais fácil do que encarar o que ele representa.

Porque o Catete lembra que o Rio ainda é cidade, não só paisagem, não só produto, não só promessa imobiliária.

Ele é imperfeito, barulhento, desigual, vivo.

E talvez seja exatamente por isso que ele resiste.

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Amanda Faraco autora do site Morar na Zona Sul do Rio de Janeiro
Amanda Faraco autora do site Morar na Zona Sul do Rio de Janeiro
Amanda Faraco, mineira apaixonada pelo Rio.

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